🇮🇷 Explicando o ataque dos EUA ao Irã!
Sua newsletter semanal com as notícias que você não sabia que precisava saber. Histórias que passaram despercebidas (ou não), mas dizem muito sobre o mundo de hoje.
Bom, acho que vale começar do básico, né?
Como eu disse sobre o ataque dos EUA à Venezuela:
Você pode ser contra o regime dos aiatolás no Irã e ao mesmo tempo condenar os ataques ilegais de Trump no país. Simples assim.
Mas vamos entender…
Os Motivos?
Quem a essa altura ainda acha que foi por causa de “armas nucelares” ou para “libertar o povo iraniano” ou para “levar democracia” tá meio doidão, né?
O New York Times escreveu um editorial com o título: “Por que você começou essa Guerra, Senhor Presidente?” Onde afirma não entender a motivação por trás de um ataque quando sempre disse que não o faria, seus principais assessores aconselhavam não fazê-lo e o país alvo voltava à mesa de negociações de paz. Não é que o NY Times está curioso, é que Trump não explicou à sua nação as razões para esta arrojada (e arriscada) empreitada. Se Reagan, Bush pai, Clinton, Bush filho, Obama… sempre recorreram a pronunciamentos em rede de TV para se dirigir ao povo americano, Trump postou um vídeo em sua versão tosca de Twitter onde, de boné, mal consegue ler as palavras de um texto confuso e delirante pra justificar o injustificável.
O Washington Post disse que:
“O ataque ocorreu apesar das avaliações da inteligência americana de que era improvável que as forças do Irã representassem uma ameaça imediata ao território continental dos EUA… na próxima década.”
Além das inúmeras falas de assessores criticando prévios conflitos dos Estados Unidos, e do próprio Trump dizendo que seria o Presidente da Paz e iria retirar os EUA de conflitos em vez de provocar guerras, buscaram ainda uma declaração do seu vice, JD Vance, ao Wall Street Journal, dizendo: “a melhor política externa de Trump vai ser não começar nenhuma guerra.” Envelheceu bem essa…
Dois outros motivos pairam no ar como uma vaca com asas:
O Caso Epstein: Trump está desesperado por qualquer distração do seu envolvimento com o caso de pedofili@ que abalou a América (e sua popularidade).
As Eleições de Midterm: as eleições de meio de mandato são um forte termômetro do presidente e, ao que tudo indica, os resultados serão catastróficos para Trump. Ser;a que o Wanna-be diatador está testando a água para chutar o balde de vez e partir para um terceiro mandato?
Armas de Destruição em Massa?
Ao longo dos últimos anos Trump vem criticando prévias administrações dos EUA sobre a cagada que seria causar uma Guerra contra o Irã. Ainda mais sem aprovação do Congresso (palavras dele).
Programa Nuclear iraniano? Tem uma matéria no próprio site da Casa Branca dizendo que o programa nuclear do Irão foi totalmente destruído!
Ah, mas o Mossad, a inteligência de Israel, a IDF… pode ter descoberto algo? Bom, se for se basear por eles, Bibi Netanyahu está desde 1995 dizendo todo ano que “o Irã está a semanas de conseguir uma bomba nuclear”. É a parábola do menino que grita lobo só que na vida real, e com armas nucleares.
E onde entra Israel nesta história?
Através da conta do seu exército, Israel publicou a mesma ladainha de sempre: “Israel tem o direito de se defender”. Parece uma conta paródia vomitando clichês que já não colam mais. Atacaram um país para se defender de um ataque que não existia? Mas se criticar é anti-semitismo…
Mas eles podem fazer isso?
O Direito Internacional é claro: a Guerra de Trump contra o Irã é ilegal.
Não há provas de que os ataques de EUA-Israel sejam preventivos. Se tivessem, Trump e Netanyahu seriam os primeiros a mostrar (até Power Point doido Bibi já usou pra tentar justificar suas loucuras em outros tempos). Especialistas em direito internacional são unânimes em afirmar que não há nenhuma alegação legítima de autodefesa nestes ataques. De acordo com a Carta da ONU, seus membros são proibidos de usar a força unilateralmente, exceto quando:
Autorizados pelo Conselho de Segurança da ONU
Em legítima defesa
EUA e Israel não recorreram ao Conselho de Segurança da ONU antes dos ataques. E sobre a legítima defesa… Defesa de quem se não houve ataque do Irã? Armas de Destruição em Massa? Quais? As que foram “obliteradas” pelos próprios EUA?
Parece uma lamentável reprise do filme que já vimos no Iraque, Afeganistão…
Os efeitos dos ataques?
O líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, que comandava o país há mais de 36 anos, foi morto. O que demonstra a força do aparato militar americano. Em menos de 24 horas eliminaram seu maior inimigo em seu próprio território. Uma prova de inteligência (saber onde ele estava), precisão (atingir onde ele estava) e força (furar bloqueios para chegar onde ele estava).
Falam tanto (e justificadamente) sobre como o Irã oprime as mulheres e em seu primeiro bombardeio matam uma centena de meninas.
Mas toda esta capacidade não foi capaz de evitar o bombardeio de uma Escola para Meninas em Minab, no sul do Irã. Mais de 100 crianças foram mortas e as imagens de mochilinhas ensanguentadas e pais procurando suas crianças nos destroços são de cortar o coração de qualquer um. Ao todo, mais de 200 pessoas foram mortas e 700 feridas nos ataques.
A reação iraniana?

De seu lado, o Irã ironicamente reproduziu a clássica frase de Israel: “o Irã tem o direito de se defender”. O problema é que essa “defesa” foi atacando bases americanas e alvos civis de países aliados dos EUA na região. Caíram bombas em Bahrein, Iraque, Jordânia, Kuwait, Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes. O Ministro do Exterior do Irã, declarou que, segundo a lei internacional: “qualquer local cedido ao país agressor pode ser um alvo legítimo”. Problema é que até hotel de luxo e o aeroporto em Dubai tomou bomba. E mesmo Israel, teve bairros residenciais sofrendo ataques com bombas.
Os aliados do Irã reagiram timidamente. Sinalização interessante para o futuro….
A Rússia disse que a ofensiva era “imprudente” e que viola diretamente do direito internacional, apelando para resoluções diplomáticas.
A dúvida é como a China irá agir. Porque ela pode usar seu peso econômico para retaliar Washington e aí o mundo vai sentir o peso de uma crise global! Mas será que eles querem isso mesmo? Logo agora?
E o petróleo?
O Irã imediatamente fechou o Estreito de Ormuz, por onde passa 88% do petróleo que sai do Golfo e cerca de 20% do comércio mundial de petróleo. E ainda atacaram um navio petroleiro (registrado em Palau) que tentou furar o bloqueio próximo de Omã. Preparem-se: preço da gasolina deve ir pras pic@s!
Quem poderá nos defender?
Bom, o Conselho da Paz de Donald Trump que não vai ser. O cara juntou puxa-sacos líderes de países como Hungria, Paquistão, Argentina, Vietnã, El Salvador, Cazaquistão… Como contraponto à ONU e para puxar seu saco apoiar suas decisões de forma incontestável e com poucos meses já começou mais uma Guerra. E, de novo, sem sequer passar por uma aprovação do letárgico Congresso dos EUA, o que já pode ser um termômetro para o futuro, mas falemos disso mais adiante…
O futuro do Irã?
Historicamente bombardeios não trazem paz ou mudança de regime. E sempre que EUA radicalizou o discurso e rompeu acordos com o Irã, os extremistas e apoiadores dos aiatolás ganham força com o discurso anti-EUA. Parte da população passa até a apoiar seus líderes.
Primeiro ponto: o Irã não é a Venezuela. Se nem na Venezuela Trump permitiu que a tosca vencedora do prêmio Nobel da Paz, Maria Corina Machado, líder da oposição, assumisse o poder, imagina no Irã, onde há uma maior organização e planejamento prévio para o caso de uma sucessão no poder. Ninguém sabe ao certo quem irá assumir o posto de aiatolá no Irã, que tem poderes acima até mesmo do presidente.
Em pronunciamento nas redes sociais (onde mais?), quando da morte de Khamenei, Donald Trump basicamente falou pro povo iraniano: “Agora, toma o poder aí”. Nenhum plano, nenhuma negociação... Estrutura de governo no Irã tem várias seguranças pra manutenção do regime mesmo com morte do aiatolá Khamenei.
Se o pessoal que comemorou no Iraque após a queda do terrível Saddam Hussein, e na Venezuela no sequestro do ditador Nicolas Maduro, logo percebeu que não tinha muito o que celebrar, somente os completamente iludidos acharam que a morte de Khamenei pode trazer paz e estabilidade ao Irã. Minhas amigas iranianas são muçulmanas orgulhosas apesar de totalmente contra os aiatolás. Vivem há meses sob medo de um ataque dos EUA e odeiam Trump (“parece um aiatolá americano”).
Quem assume é o Aécio?
Khamenei não é Maduro. O governo não foi derrubado. O regime iraniano foi projetado para ter planos de contingência e sucessão mesmo nestes casos extremos. Uma das possibilidades é que o filho de Khamenei, Mojtaba Khamenei, herde seu posto. Mais do mesmo? Não, pior.
Avaliações de inteligência confiáveis apontam pra mesma conclusão: um Irã pós-Khamenei provavelmente vai se tornar ainda mais radical. Mais conservadorismo, mais extremismo, mais Guarda Revolucionária, mais fundamentalismo e mais terrorismo. Pior pro povo iraniano e pior para seus inimigos.
De longe, o filho do xá, o Reza Pahlavi, que mora no exterior e só aparece pra lacrar nestes momentos, já começou a dar a carinha. Mas ele está longe de ser unanimidade entre o povo que não tem em boa conta o governo de seu pai (mesmo vendo o que se tornou a Revolução Islâmica que o sucedeu). Maioria o considera um playboy sem qualquer ligação com a realidade iraniana (como falei em outra newsletter).
EUA e Israel agora estão mais seguros?
A justificativa de Trump foi “defender o povo americano, eliminando ameaças iminentes do regime iraniano” e parece esperar que o público tenha esquecido que ele recorreu exatamente à mesma justificativa quando ordenou bombardeios contra o Irã meses atrás. O que era verdade antes continua sendo agora: não há qualquer evidência de que o governo iraniano estivesse prestes a desenvolver uma arma nuclear. Tampouco o exército iraniano tem poderio militar capaz de atingir o território dos EUA.
Além disso, não havia qualquer indício de que os líderes do Irã pretendiam lançar um ataque preventivo contra forças americanas no Oriente Médio. A tentativa do governo Trump de sustentar que o Irã planejava disparar mísseis de forma “preventiva” beira o absurdo. Durante semanas, Teerã assistiu à movimentação das forças americanas preparando um ataque e, mesmo assim, não lançou nenhuma ofensiva antecipada.
Se o Irã de fato representasse uma ameaça imediata ao povo americano, por que Trump vinha sinalizando publicamente esse ataque desde janeiro? É inegável que os mísseis, drones e grupos aliados do governo podem atingir tropas dos EUA na região (como aconteceu no sábado), mas se Trump estivesse preocupado com a segurança de suas tropas podia simplesmente retirá-las da região.
No longo prazo, a reação pode ser difusa e reacender terrorismo em solo americano, como vimos em outras situações similares de pós-invasão/ ataques.
Ou seja: EUA e Israel não estão mais seguros que antes porque nunca estiveram ameaçados (e pouco mudou após os ataques).
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Vou usar a frase dele contra ele mesmo:
“You’re gambling on world war three”
Lembro que ele falou isso pro Zelensky
Excelente texto! Parabéns, André.
O mundo vai sofrer e não vai ficar mais seguro. O que acontece é um novo panorama: quem tem armas controla as regras por amor (ou na dor). Escolham! Um novo mundo se (re)inicia e não vai ser conselhos, organizações ou qualquer outro grupo tentando orquestrar este desastre e voltar a sintonia. EUA deixou claro como vai governar! Europa virou carta fora do baralho! Rússia tem os seus problemas e China não vai entrar na guerra bélica. Vai usar armas comerciais daqui em diante. Reflexões de um curioso. Hahahhaa